segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Crítica - O Céu de Suely

O Céu de Suely
Ano: 2006
Diretor: Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz, Felipe Bragança e Maurício Zacharias
Sinopse:
Dois anos atrás, Hermila partiu. A experiência em São Paulo foi boa, mas a cidade era cara demais. Agora ela está de volta a Iguatu, no sertão cearense. A casa da avó, Zezita, e da tia, Maria, é acolhedora e confortável. Mas não demora muito e Hermila se dá conta de que precisa ir embora dali outra vez. Inspirada nas conversas com a amiga Georgina, ela adota o nome de Suely e inventa um plano audacioso para levantar dinheiro e conseguir viajar.
Resenha:
Num saudosismo das imagens filmadas por uma Super 8 - as lembranças de um casal. Naquele domingo de manhã ela engravida, e ao relatar os detalhes daquele instante ela demonstra sua paixão. Corta para uma viagem de Ônibus, Hermila é apresentada, e ao chegar em seu destino com uma criança no colo há nesse plano a primeira representação da imponência do Céu - “AQUI COMEÇA IGUATU”.
Logo somos apresentados a sua Avó, Zezita, e sua Tia, Maria, que a recebem em casa na expectativa de Hermila da chegada de seu amor, Mateus. Na data anunciada ela vai até a parada, caminha até o ônibus e pergunta: “Todo mundo já desceu?”. Sim. Logo o mundo se vela, todo o foco de cena se concentra nela, Ainouz demonstra em sua face a solidão do abandono.
Na distância que os separam, nas ligações não atendidas, no comentário da mãe de Mateus ‘Meu filho só tem 20 anos, você sabe o que é isso?’ desponta os conflitos da protagonista. Na figura de Georgina retoma a esperança, há em Hermila a força em seu Alter Ego - Suely. Na figura da primeira ela vê a possibilidade de mudança, então decidi fazer uma rifa, o prêmio: Uma noite no Paraíso.
Em paralelo a um romance com João, seu amigo de infância, ela vivencia em uma cidade interiorana os burburinhos de uma ideologia colonial. Entre a perseguição implacável das Mulheres que a repudiam, entre o machismo repugnante ela rompe seu relacionamento e na fuga para um outro lugar está sua solução, mesmo que para isso tenha que deixar seu filho.
O céu de Suely é uma perspectiva hiper realista ditada por Aïnouz e reproduzida por sua abordagem cinematográfica. A fotografia improvisada, a trilha popular de Aviões de Forró mesclada com a canção “Tudo que eu tenho” de Diana, são características marcantes que se incorporam a personagem. E, tendo nomeado os personagens com o primeiro nome de cada Ator e Atriz ele intimiza a história, estamos além dos caricatos.
Ante a essa realidade que perpassa entre os planos abertos aos closes retornamos ao plano Aberto. Logo o horizonte dita uma fronteira do desconhecido, mas para Hermila ou Suely não há temor quando além dela está sua única saída.

“AQUI COMEÇA A SAUDADE DE IGUATU”  

domingo, 20 de maio de 2018

Soundtrack (parte 2)

Título: Sob o julgo do Rap, entre Don L e Makalister, ainda assim não esqueço A Lista.

Além dos passos sonolentos, na falta de apetite, vivo rápido para morrer bem. Pulando faixas, definindo traços no minimalismo, aprofundando relacionamentos, se desfazendo de outros. Hoje sinto na música mais empatia que nas outras Artes.
II
Ontem
[03:22, 19/5/2018] Testando 1 2 3
[03:58, 19/5/2018] Testado 321
[05:00 hr] Levanto e vou trabalhar. Bêbado de sono, um dia de eterno conflito contra ele. Torno a me comprometer para assim esquecê-lo, sigo essas horas sob uma Track - “Gasolina e Fósforo”. “Cumprindo horário / Felizes, prósperos, sorrisos de plástico / Bandeiras de selo pro desejo / Cardápio”. Voluntário do meio, submeto-me como servo. Grana no meu bolso, foco nos negócios / Gelo pra desinflamar a dor no meu copo / Muda minha vida que eu mudo meus modos / Mas enquanto eu não posso / Gasolina e fósforo”. Necessidade.
[10:30 hr] Já havia uma ideia a ser maturada na cabeça - Frenesi. O Minimalismo tem me possuído. Princípios singelos de tamanha profundidade - quase como tirar leite de pedra. E cada traço sussurra para mim um significado. Ao sair do trabalho, vou na livraria arranjo uma mesa e tento invocar aos traços, às palavras a ideia - não consigo dissociar do álbum Roteiro para Aïnouz de Don L.
[13:00 hr] Entre conversas, meu irmão decidiu me acompanhar no meu roteiro cultural de baixo custo. Exposição de Frida e Diego, e a peça Um Vânia (uma adaptação de Tchekhov). Marcamos um encontro na Estação de Metrô, opto por ir mais cedo. Enquanto o espero no banco indo pra Lapa ouço um novo álbum “A Terça Parte da Noite” de Makalister. Meu celular vibra - uma mensagem do Whatsapp:
[14:11, 19/05/18] Acorda
Track 02 - “A terça parte da noite não dormi”. O título já defini.
Novamente acompanhado, quando havia denominado esse final de semana como Roteiro do Peregrino, era antes do Eremita do que uma Romaria. Na exposição fotográfica há algo nos olhares de Frida Kahlo que me acometem dúvida, a petrificação. Não posso ir além, estou cheio de dúvidas sobre o relacionamento deles e por isso duvido das afirmações de amor relacionadas ao casal. Saio com meu irmão de lá com um objetivo. Track - “Ferramentas”. “Da hora, nego / As ideia é, cê tá ligado / É pra gente ir trocando umas ideia / E vamo, né, aprendendo um com o outro”. Na sua história sinto no tom de suas palavras as emoções, dos encontros, dos amores, de sua vida. Das alegrias, da nostalgia, e a infelicidade. Vejo nas fotos da exposição, nele e em mim semelhanças - relacionamentos.
Um Vânia. Tchekhov me surpreende por sua temática, para mim, universal. O estado de sonolência serve como um medidor, a medida do sono está diretamente relacionado com meu interesse. E a peça parecia droga, nele a vida parecia imitar a arte. Vejo isso em meu irmão, primeira peça em que assiste, logo se identifica com um dos personagens. A partir daí sua atenção lhe é roubada. Ele sorri. Por uma hora nem parecia preocupado com o celular e isso é o que importa.
Corremos de lá para o ponto, do ponto ao metrô, do metrô ao shopping e do shopping a casa de meu amigo. Todo o trajeto repito com frequência os mesmo versos de Makalister, track - ”Exercício de Elogio às Mulheres que Amei”. “Tennessee Whiskey, não ponha Gelo”. Exercício de trava língua.
22:19 hr Chego na casa do meu amigo. Durmo lá. Iremos à praia amanhã.
[17:48, 19/5/2018] Tenho andado castigando meu sonhos e dormido pouco
[17:49, 19/5/2018] Mas tento usar esse tempo para retomar coisas que abandonei anos atrás
[17:49, 19/5/2018] 23
[17:49, 19/5/2018] Cedo
[17:50, 19/5/2018] Abandonará outras tantas
Na conversa com aquela mina que conheci na casa noturna no dia anterior lembro, agora, de uma única música. Mesmo ouvindo Don L e vivendo rápido não reconheço outra música que não seja esta: “A lista” de Oswaldo Montenegro.

“Faça uma lista dos sonhos que tinha / Quantos você desistiu de sonhar! / Quantos amores jurados pra sempre / Quantos você conseguiu preservar…”

Soundtrack (parte 1)

Título: O que Don L tem feito por mim.

Um breve relato do meu final de semana e de como o álbum Roteiro para Aïnouz e algumas músicas de Don L tem influenciado nas minhas decisões.
I
Logo que a vi na fila tremi. Porque guardei os fones? Don L me acalma. Solto a bolsa de mão no chão, abro a mochila, puxo o fone, ele está todo enrolado. Me atrapalho, não quero vê-la antes da música tocar - nos olhamos por um momento. Um leve ‘olá’ com as mãos. Nesta colisão, tento manter a postura e ponho os fones e solto a primeira música da track, “Eu não te amo” - irônico não? A batida vibra nos meus ouvidos, meus pensamento se desmancham e reproduzo as letras. Porque eu andei por aí / Colecionando cicatriz / Transformando em pedras / Que ergui numa muralha / Entre o meu coração”.  No entanto, não consigo agir naturalmente, meu corpo está abalado, todo o cansaço da semana se soma ao tremor, incontrolável, logo pego a comida, logo como, logo queimo minha boca. Bebo com todo ardor. Meu corpo me violenta, track 03 - “Aquela Fé”. Ei, eu / Dez anos atrás / Eu tenho saudade / Será que eu consigo lembrar? / Daquela fé / No fundo dos olhos de um velho eu / Um jovem sonhador.” Um passado ingênuo, uma lágrima, outra... Termino a bebida. Se contenham! É o meu desejo, mas não minha vontade. Não é temor, raiva ou algo vingativo é um vazio. Um espaço nenhum de uma vida passada. Levanto, saio, enquanto Don L toca minhas memórias. Sensibilidade ou memória são um cu.
Quando ela quis desistir do curso? Quando havia o princípio de Síndrome do Pânico? E, as noites de atenção poucas horas antes de ir para o trabalho? Lembranças, agradáveis, mas dolorosas quando visto o motivo do término. Sinto-me em frenesi, track 08 - “Se num for demais”. Ok, aqui estou de novo / Comprei uma dose de gin / Deixei meu amor e o troco / Faz favor / Conta as moeda sozin' / Se não for demais é pouco / Num sei se a morte é o fim / Mas sei que a noite é dos loko / Tá bom pra você assim? / Eu quero viver.” Retorno aos meus planos e recordo que hoje é o aniversário da minha irmã, o compromisso que havia furou com ela então a chamo para um “Slow Jam”. “Gata vem comigo chapar / Mas só a conta / Vem tomar um drink no bar / Por minha conta / Vem dançar uma slow jam / … / Num vai dizer que não vem.” Vejo um sorriso e, apesar do abismo, vamos curtir aquela noite. Entre risos, conversas, desabafos, álcool, música e dança. Então, Ela surge, súbito, e num comentário que ouvimos rimos, num movimento plástico ela me seduz. Pronto, “Chapei” naquela mina. “Baby girl, eu chapo em você / Baby girl, eu chapo em você / Baby girl, eu chapo ein! eu chapei! / Eu chapo, ein! Eu chapei! / Eu chapo, ein! Eu chapei!”. Decidido em dar um reset em minha vida, tenho a convicção de não deixar mais meus desejos reprimidos. Decido então tentar, pelo menos levar comigo seu número e independente do resultado ter comigo essa lembrança.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Crítica - Sete dias em Entebbe

Sete dias em Entebbe
Ano: 2018
Direção: José Padilha

Roteiro: Gregory Burke
Sinopse: Em julho de 1976, um voo da Air France de Tel-Aviv à Paris foi sequestrado e forçado a pousar em Entebbe, na Uganda. Os passageiros judeus foram mantidos reféns para ser negociada a liberação dos terroristas e anarquistas palestinos presos em Israel, na Alemanha e na Suécia. Sob pressão, o governo israelita decidiu organizar uma operação de resgate atacar o campo de pouso e soltar os reféns.
Resenha:
O que seria um discurso sobre o Exército de Libertação da Palestina, é também um discurso sobre Terrorismo. Após esse breve começo cortinas se abrem e vê-se uma apresentação de dança composta por Ohad Naharin. Nesse paralelo Padilha relata uma Operação Entebbe de indiferença ao julgamento do que seria certo ou errado.
Trata-se então do filme a partir das múltiplas faces criando uma trama entre os personagens que são fortemente demarcados por sua herança histórica. Alemães, judeus e palestinos possuem uma estigma histórica que exaltam questionamentos no espectador - ao colocar no grupo terrorista alemães sequestrando judeus, ou a perseguição dos palestinos pelo último.
Isentando-se de uma posição ideológica o filme perde tensão. No entanto, o editor Daniel Rezende propõe uma montagem dinâmica, que, ainda assim, dialoga com a proposta do filme. O clímax existe em função do paralelo inicial da história, na apresentação de dança, há o espetáculo da Operação Entebbe e ironicamente ao aplaudirem a primeira há também o sucesso da última.
Nessa cadeia de violências, há também uma corrente contrária. Nas ideologias de libertação ou da paz fica claro a predominância da força como único meio de preservação do poder. A ideologia dos alemães pró libertação da palestina, ou do primeiro ministro a favor do diálogo, flagram princípios de extremismo ou de xenofobia entre eles.

Ao optar por uma predominância dos planos médios e fechados Padilha aproxima o espectador dos personagens. E, na ausência de um posicionamento nos aproximamos das pessoas e de suas motivações - Rosamund Pike, “A garota exemplar”, faz sua marca na cena do orelhão. Apesar dos diversos núcleos enfraquecerem a trama Sete dias em Entebbe denota a linguagem do discurso de poder tornando-se um filme não extraordinário, mas, no mínimo, que deve ser avaliado.

domingo, 15 de abril de 2018

Crítica - Um Lugar Silencioso

Um Lugar Silencioso
Ano: 2018
Diretor: John Krasinski
Roteiro: John Krasinski, Scott Beck, Bryan Woods.
Sinopse:
Em uma fazenda nos Estados Unidos, uma família do Meio-Oeste é perseguida por uma entidade fantasmagórica assustadora. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som.
Resenha:
Um lugar silencioso é o que todos nós buscamos em algum momento de nossas vidas. O filme nos apresenta esse lugar como uma constante e sob esse domínio uma família deve respeitá-lo para sobreviver. Esta ausência sonora inexiste no ambiente, ela está nos humanos e nos temores que qualquer barulho causado por eles pode acarretar.
Nesse preceito, a relação familiar poderia ser comprometida pela incomunicabilidade sonora, no entanto, suas complicações estão ligadas a impossibilidade de demonstrarem suas emoções. A mãe protetora, o pai sobrevivente, o filho temeroso e a filha surda compartilham do trauma da perda no início do filme - todos se sentem culpados. Logo, atos substanciais como o grito, o choro e a fala são reprimidos.
Se não há som, então há sinais e luz. Devido ao fato de possuírem uma filha surda a família se adapta a linguagem de sinais como única solução comunicativa. No entanto, há ainda sinais internos quanto a iluminação, por exemplo. Iluminação esta que se altera entre os atos do filme - inicialmente assume um aspecto que retoma uma pintura em natureza-morta, e posteriormente assume um tom avermelhado como um sinal de alerta ou perigo eminente.
Neste contexto, a criatura torna-se onipresente, todo ruído é um motivo de tensão. Aí o filme se revela surpreendente. Ao suprimir o som ele exalta os ruídos do ambiente, dos gestos, e as explosões das palavras, do grito e dos acidentes. Os poucos diálogos são preenchidos pela trilha sonora que emotivamente acompanha a pulsação dos batimentos cardíacos. E, apesar de desconhecermos a origem da criatura, ficamos absortos ao perigo que aquela família está envolvida.
Um filme como produto audiovisual tem o som como componente fundamental na obra. John Krasinski subverte a experiência cinematográfica ao tornar vazio esse componente e ao mesmo tempo nos mostra que seu vazio é presente. Um lugar silencioso transporta a responsabilidade, além da tela, para a sala de Cinema, a experiência como espectador se amplia e, assim, somos imersos a realidade fílmica. Não, por acaso, que nos vimos tenso e abraçados a agonia dos personagens. Um lugar silencioso é um filme que cumpre com a proposta do gênero de suspense/terror.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Resenha Literária - O Conto da Aia



Resenha Literária

O Conto da Aia

Ano: 1985

Autora: Margaret Atwood

Sinopse:

Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gilead, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Aias, são obrigadas a conceber filhos a elite estéril.

Resenha:

Um estado criado a partir do ódio e repúdio às diferenças. Tradicionalmente religiosa, a regência da sociedade encontra-se nas mãos dos Homens. A História lhes retoma o status de Humanidade. Condenada a este Estado a protagonista retrata não apenas a Teocracia de Gilead, mas também a Democracia dos Estados Unidos da América.

No universo do livro, Offred é uma relatora de uma “distopia”. Sendo fértil ela tem por obrigação garantir filhos ao Comandante Fred e sua esposa Serena Joy. Submissas, independente de sua posição, as mulheres servem ao Homem em respeito aos valores religiosos. Sob uma doutrinação fascista, e o medo dos Olhos, suas vozes silenciam-se.

Atwood revela na natureza das relações humanas uma microfísica do poder. Nos gestos, aparentemente inocentes, de condolência masculina ou de sujeição feminina está a base que fundamenta a sociedade de Gilead. Na aceitação dos preconceitos e estereótipos de uma sociedade cordialmente machista está a permissão das figuras públicas.

No entanto, o silêncio implica no consentimento. O Conto da Aia é um livro angustiante, pois ao demonstrar nas lembranças de Offred um simulacro pertinente a nossa realidade temos uma protagonista que remete as nossas fraquezas - independente de sexo ou gênero. Ao refletir sobre sua Mãe, sobre Moira, e todos os outros símbolos de resistência retomo uma sentença do doc. “She’s Beautiful When Shes Angry”:

“A lição amarga é que nenhuma vitória é permanente. Todos os nossos direitos são assim. Eles são tão bons quanto como os mantivermos.”

A influência que alguns políticos exercem no Brasileiro é temerosa. Devido a fatores como a aceitação dos discursos de intolerância se originou o Estado de Gilead. O livro ‘O Conto da Aia’ possui uma relevância por demonstrar a fragilidade dos direitos humanos. 



sábado, 17 de março de 2018

Crítica - 2046

2046 - Os Segredos do Amor
Ano: 2004
Diretor: Wong Kar Wai
Roteiro: Wong Kar Wai
Sinopse: Hospedado em um hotel em Hong Kong, o jornalista Mo Wan Chow escreve um livro de ficção científica sobre o futuro enquanto recorda seus relacionamentos do passado e se envolve com suas vizinhas de quarto.
Logo no início do filme Kar-Wai Wong sugere uma sintonia entre som e imagem. Os créditos iniciais surgem com a música lentamente, e ao saltarem de um nome para outro a música também acompanha em intensidade. 2046 é um quebra-cabeça narrativo, pois no relato do jornalista Chow Mo-wan há um entrelaçar entre passado, presente e futuro.
Uma confusão temporal proposital que se expressa no tom da imagem - o verde. Um brilho esmaecido que insinua lembranças - como fotografias desbotadas. E, no relato do Jornalista que escreve uma ficção no tempo futuro sobre um trem que leva pessoas para 2046, um lugar onde todos vão para reviver o passado. Reflexões se sobrepõem aos segredos do tempo e do amor, na atemporalidade dos sentidos está o fio de Ariadne.
No entanto, na razão do tempo o presente é um segredo a ser desvelado quando este vier a ser passado. Nas suas relações com suas amantes ele incorpora suas experiências a ficção e denota seu amadurecimento. Nesse ponto, há uma cor que se sobressai - o vermelho. Esse tom é violento para os olhos, a cor por si denuncia as sensações dos personagens. O que antes o verde significava, o vermelho denota vida. Viver é sentir.
“Quando a Peônia floresce, ela se ergue e morre sem dar uma resposta”

No silêncio da Peônia está o sentido do filme. Apesar do amor que uma vez vivenciou ele declara sua solidão No trem que vai para 2046, amor que muitas vezes vivenciou, ele reconhece sua condição - não há como abdicar de si. A montagem do filme se justifica, o amor é confuso. Wong Kar-wai faz da película sua obra mais madura. Seja na ficção 2046, seja no quarto nº 2046, Chow Mo-wan é o diretor. E, ao personagem expressar-se em primeira pessoa, ele coloca o espectador em seu lugar. Logo, em seus devaneios refletimos e nos sentimentos que nós evocamos é sabido que também faz parte dele.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Crítica - The Florida Project



The Florida Project

Ano: 2017

Diretor: Sean Baker

Roteiro: Sean Baker, Chris Bergoch
Sinopse: Moonee, uma agitada garotinha, faz novas amizades nas redondezas dos parques Disney. Ela vive com a mãe em uma hospedagem de beira de estrada e as duas contam com a proteção do gerente Bobby na batalha diária pela sobrevivência.
Futureland é a primeira referência geográfica que temos do filme. Futureland não é apenas um Hotel a beira de estrada, seu nome é um símbolo, assim como Magic Castle, o hotel em que a protagonista Moonee vive, também é. A Flórida aqui destacada é oposta a opulência frequentemente divulgada na mídia. Sean Baker há de tratar da periferia - há de tratar duma sociedade marginalizada.
Utilizando-se de uma filmagem quase que documental, ele explora o filme como uma criança. Observando o mundo a partir dela - tanto na angulação, como na movimentação. Um Ozu hiperativo predomina, um sutil contra-plongée em perpétuo movimento. Nessa predominância seus planos ganham significado, pois, ao alternar para uma grande angular, ou para um plano fixo ela assume uma nova representação. E, ao ver o Magic Castle, ou a árvore despencada que continua a crescer, a realidade das imagens gritam ao espectador.
Nesta perspectiva infantilizada, vê-se o mundo de Moonee. Invadindo estes personagens marginalizados  - uma mãe imatura, um gerente preocupado, e crianças, cria-se um véu, que se não analisado ou questionado seria um filme inocente. Um destaque são as mães, que ao ser abandonadas com os filhos devem sobreviver, obrigando-se a uma jornada dupla - trabalho e casa, e sem tempo para dar a devida atenção às crianças. Os pequenos vagueiam denotando o abandono, os anseios e a preocupação delas.
No entanto, esta forma de representar o mundo, inicialmente, engana. Atos são banalizados por mais violentos ou irresponsáveis que sejam. Algumas cenas expressas são deslocadas e sem sentido. Mas, o diretor/editor Sean Baker faz propositalmente. Ele circunscreve significados. Utilizando sutilezas de montagem, detalhes nas cenas ou nos diálogos.
Como, por exemplo, ele demonstra: uma cena de uma criança tomando banho ao som de hip hop. A criança nos rouba atenção - crédito para Brooklynn Prince, colocando-nos em dúvida quanto a sua representação no momento. Usando este momento repetidas vezes, ele incuti dúvida. Ao chegar nesse ponto, há um plot e tudo se esclarece. Logo, ocorre uma virada emocional que surpreende o espectador.
Um filme carregado pelo protagonismo da Atriz mirim, pela montagem e direção de Sean Baker, e pelo contexto que os personagens estão submetidos.  Devido a atmosfera precoce dessa menina a comédia com seus palavrões ou gestos obscenos é de uma comicidade enganosa. Edificando a trama nesses fatores ele cria sutilezas cruéis, dramáticas. Moonee emociona em todos os níveis - do riso às lágrimas. E, toda a irresponsabilidade da mãe é compreendida, perdoável até, tudo por causa do amor que ela demonstra pela filha.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Resenha Literária - As Três Irmãs


Resenha literária
As três irmãs
Autor: Anton Tchekhov

Sinopse:
"As três irmãs" é uma peça do dramaturgo russo Anton Pavlovitch Tchékhov, em quatro atos, um drama escrito em 1900 e encenado pela primeira vez em 1901, em Moscou. Três irmãs, Olga, Irina e Macha, vivem durante muitos anos na província, em companhia de seu irmão Andrei. Olga, solteira que vê os anos passarem e a oportunidade de casar; Macha, esposa de um ex-professor, aos poucos percebe a mediocridade do marido; e Irina, mais nova, que é a única que ainda acredita no futuro. Um drama sobre pessoas comuns e seus problemas aparentemente banais, mas que transformam a vida em um fardo difícil de suportar.
Resenha:
O autor trata de personagens, seus estados mentais determinam a ambiência da peça. Suas vidas privilegiadas são usurpadas por suas crises existenciais. A questão aqui não é a matéria, eles têm tudo de que precisam. A questão é psicológica, apesar do que possuem sofrem. Na inércia provinciana que vivem, acomodam-se em seus sonhos e não medem esforços, sempre a espera de uma realização miraculosa.
Nos quatros atos este tempo delineia não horas ou dias, e sim meses e anos. Um tempo despercebido, só exposto nos detalhes dos diálogos, das estações, dos eventos. A vida das personagens são aparentemente imutáveis, pouco  se transforma. Há, apenas, súbitos estímulos - como a visita do coronel Verchini vindo de Moscou. Tempos que retratam a nostalgia alegre do passado, que motivam o desejo de reencontrá-la em Moscou - o futuro. E, o presente, demarca a angústia e a insatisfação da realidade.
Os Discursos filosóficos são representados pelos Homens. Tratam sobre a vida, o trabalho, o niilismo, o amor. Prosaicos nas conversações, suas palavras soam irônicas. Ao lidar com suas questões prestando grandezas às futuras gerações, e, ato contínuo, definem a vida à maneira fatalista, esvaziando-a de sentido e escravizando-a ao estoicismo. Palavras que soariam pérfidas se não houvesse o amor. Declarações fugazes de Verchini para Macha, do Dr. Tchebutykin para com as irmãs, de Tusenbach e Solioni a Irina.
Logo, no começo da peça Solioni sentencia:
“Quando um homem se mete a filosofar, o resultado é a filosofística, ou melhor: a sofística. Mas, se é mulher ou se são duas mulheres, então tudo se reduz a…”
No entanto, é nas ‘fofocas’, que  as personagens se revelam mais interessantes. O subtexto se revela mais importante que as divagações dos personagens anteriores. Olga, Macha e Irina são um contraponto. Desvelam as banalidades e se apoiam no trabalho, infelizmente, vítimas das convenções sociais Olga e Macha se deixam abater e se conformam com sua situação. Entretanto, Irina, persiste no sonho de viver em Moscou, independente do irmão Andrei e de qualquer marido.
Como um fluxo de vida cotidiana, Tchekhov delineia o drama desses seres. Ele não relata apenas aspectos típicos de uma cidade provinciana, mas as universaliza na natureza social pelos sentimentos vividos pelos personagens. O trabalho é o que justifica a existência, o que se faz presente é o que importa. A alegria uma vez vivida por elas está nas lembranças da infância em Moscou, e como o relato de Verchini sobre um Ministro Francês ele conclui:
“Vocês não repararão em Moscou quando forem morar lá.”

Tudo o que há são desejos. É inevitável. Uma tragédia das trivialidades, percebido por Stanislavski na primeira leitura no Teatro Artístico de Moscou. Tchekhov representa em “As Três Irmãs” uma sociedade exausta, um breve reflexo contemporâneo. Uma obra dramática difícil de ser digerida por ter esse caráter tão comum ao ser humano. E, por essa razão, é que ela vale a pena ser lida.

Resenha Literária - Casa de Bonecas


Resenha Literária
Casa de Bonecas
Autor: Enrik Ibsen

Sinopse:
“Casa de Bonecas é uma peça teatral escrita em 1878 e lançada em 1879, sendo apresentada pela primeira vez no “Det Kongelige Teater” em Copenhage. É um drama em três atos, em que Ibsen questiona as convenções sociais do casamento. A tragédia retrata a hipocrisia e convencionalismos da sociedade do final do séc. XIX. Na época, mediante as tentativas de emancipação feminina, foi uma peça revolucionária, com grande repercussão entre feministas, a Europa inteira discutiu. Com essa peça, os críticos acreditam que Ibsen abriu caminho para a tragédia, devido a solução trágica tomada pelo autor da história.”
Resenha:
Uma mulher perseguida pelos erros do passado, sacrifícios que cometeu por amor ao Marido. E, logo não compreendemos sua motivação. Pois, somos invadidos pela dissimulação e hipocrisia de sua relação. Toda a trama se constrói num único cômodo e uma sala de estar burguesa nunca foi tão profanada. Assim, vos apresento Casa de Bonecas de Henrik Ibsen.
Helmer: “Nora, Nora! Só podia ser mulher...” – Ibsen nos põe em contato com pessoas detestáveis. Mas, como poderíamos estimar a protagonista se elas não existissem? Sensações de asco e revolta são despertadas nas primeira páginas e nos acompanham até o fim. Sr. Torvald Helmer, seu marido, incorpora todo convencionalismo da época, zela pela família, ou por sua honra. Primeiramente, sua honra – que não está além das aparências.
Das personagens, abstenção de si em prol da família é o que caracteriza as mulheres na obra. Kristina, a viúva, trabalha para cuidar dos irmãos e da mãe, a Babá para dar condições melhores a filha, e Nora para satisfazer seus filhos e marido. Entretanto, ao se doarem para outrem elas esquecem de si - como se a vida delas fossem restritas a familía.  Elas inexistem na sociedade, pois, sendo aias, logo tornam-se bonecas.
No entanto, o autor se surpreende, até então esta história parece nos levar a crer numa tragédia grega. Mas, Nora sendo antônimo de Liv Ullmann em “Quando duas mulheres pecam”, ela não se cala ao perceber sua posição. Ainda mais além, Ibsen antecipa Camus em “O Homem Revoltado”, sendo mais revolucionário com “A Mulher Revoltada.”. É possível ouvir Nora na frase camusiana: “Revolto-me, logo existo”, destarte, origina-se Nora e não a boneca de Torvald.

Portanto, Casa de Bonecas como leitura foi elementar para sua época, e, lamentavelmente, para nossa. Mas, o fato de ser anacrônica só reforça que nenhum vitória é permanente. Os direitos uma vez conquistados só são bons uma vez que os mantivermos. Ibsen como artista funda uma obra além do tempo, uma obra que se recomenda a todo momento.