terça-feira, 24 de abril de 2018

Crítica - Sete dias em Entebbe

Sete dias em Entebbe
Ano: 2018
Direção: José Padilha

Roteiro: Gregory Burke
Sinopse: Em julho de 1976, um voo da Air France de Tel-Aviv à Paris foi sequestrado e forçado a pousar em Entebbe, na Uganda. Os passageiros judeus foram mantidos reféns para ser negociada a liberação dos terroristas e anarquistas palestinos presos em Israel, na Alemanha e na Suécia. Sob pressão, o governo israelita decidiu organizar uma operação de resgate atacar o campo de pouso e soltar os reféns.
Resenha:
O que seria um discurso sobre o Exército de Libertação da Palestina, é também um discurso sobre Terrorismo. Após esse breve começo cortinas se abrem e vê-se uma apresentação de dança composta por Ohad Naharin. Nesse paralelo Padilha relata uma Operação Entebbe de indiferença ao julgamento do que seria certo ou errado.
Trata-se então do filme a partir das múltiplas faces criando uma trama entre os personagens que são fortemente demarcados por sua herança histórica. Alemães, judeus e palestinos possuem uma estigma histórica que exaltam questionamentos no espectador - ao colocar no grupo terrorista alemães sequestrando judeus, ou a perseguição dos palestinos pelo último.
Isentando-se de uma posição ideológica o filme perde tensão. No entanto, o editor Daniel Rezende propõe uma montagem dinâmica, que, ainda assim, dialoga com a proposta do filme. O clímax existe em função do paralelo inicial da história, na apresentação de dança, há o espetáculo da Operação Entebbe e ironicamente ao aplaudirem a primeira há também o sucesso da última.
Nessa cadeia de violências, há também uma corrente contrária. Nas ideologias de libertação ou da paz fica claro a predominância da força como único meio de preservação do poder. A ideologia dos alemães pró libertação da palestina, ou do primeiro ministro a favor do diálogo, flagram princípios de extremismo ou de xenofobia entre eles.

Ao optar por uma predominância dos planos médios e fechados Padilha aproxima o espectador dos personagens. E, na ausência de um posicionamento nos aproximamos das pessoas e de suas motivações - Rosamund Pike, “A garota exemplar”, faz sua marca na cena do orelhão. Apesar dos diversos núcleos enfraquecerem a trama Sete dias em Entebbe denota a linguagem do discurso de poder tornando-se um filme não extraordinário, mas, no mínimo, que deve ser avaliado.

domingo, 15 de abril de 2018

Crítica - Um Lugar Silencioso

Um Lugar Silencioso
Ano: 2018
Diretor: John Krasinski
Roteiro: John Krasinski, Scott Beck, Bryan Woods.
Sinopse:
Em uma fazenda nos Estados Unidos, uma família do Meio-Oeste é perseguida por uma entidade fantasmagórica assustadora. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som.
Resenha:
Um lugar silencioso é o que todos nós buscamos em algum momento de nossas vidas. O filme nos apresenta esse lugar como uma constante e sob esse domínio uma família deve respeitá-lo para sobreviver. Esta ausência sonora inexiste no ambiente, ela está nos humanos e nos temores que qualquer barulho causado por eles pode acarretar.
Nesse preceito, a relação familiar poderia ser comprometida pela incomunicabilidade sonora, no entanto, suas complicações estão ligadas a impossibilidade de demonstrarem suas emoções. A mãe protetora, o pai sobrevivente, o filho temeroso e a filha surda compartilham do trauma da perda no início do filme - todos se sentem culpados. Logo, atos substanciais como o grito, o choro e a fala são reprimidos.
Se não há som, então há sinais e luz. Devido ao fato de possuírem uma filha surda a família se adapta a linguagem de sinais como única solução comunicativa. No entanto, há ainda sinais internos quanto a iluminação, por exemplo. Iluminação esta que se altera entre os atos do filme - inicialmente assume um aspecto que retoma uma pintura em natureza-morta, e posteriormente assume um tom avermelhado como um sinal de alerta ou perigo eminente.
Neste contexto, a criatura torna-se onipresente, todo ruído é um motivo de tensão. Aí o filme se revela surpreendente. Ao suprimir o som ele exalta os ruídos do ambiente, dos gestos, e as explosões das palavras, do grito e dos acidentes. Os poucos diálogos são preenchidos pela trilha sonora que emotivamente acompanha a pulsação dos batimentos cardíacos. E, apesar de desconhecermos a origem da criatura, ficamos absortos ao perigo que aquela família está envolvida.
Um filme como produto audiovisual tem o som como componente fundamental na obra. John Krasinski subverte a experiência cinematográfica ao tornar vazio esse componente e ao mesmo tempo nos mostra que seu vazio é presente. Um lugar silencioso transporta a responsabilidade, além da tela, para a sala de Cinema, a experiência como espectador se amplia e, assim, somos imersos a realidade fílmica. Não, por acaso, que nos vimos tenso e abraçados a agonia dos personagens. Um lugar silencioso é um filme que cumpre com a proposta do gênero de suspense/terror.