quarta-feira, 28 de março de 2018

Resenha Literária - O Conto da Aia



Resenha Literária

O Conto da Aia

Ano: 1985

Autora: Margaret Atwood

Sinopse:

Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gilead, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Aias, são obrigadas a conceber filhos a elite estéril.

Resenha:

Um estado criado a partir do ódio e repúdio às diferenças. Tradicionalmente religiosa, a regência da sociedade encontra-se nas mãos dos Homens. A História lhes retoma o status de Humanidade. Condenada a este Estado a protagonista retrata não apenas a Teocracia de Gilead, mas também a Democracia dos Estados Unidos da América.

No universo do livro, Offred é uma relatora de uma “distopia”. Sendo fértil ela tem por obrigação garantir filhos ao Comandante Fred e sua esposa Serena Joy. Submissas, independente de sua posição, as mulheres servem ao Homem em respeito aos valores religiosos. Sob uma doutrinação fascista, e o medo dos Olhos, suas vozes silenciam-se.

Atwood revela na natureza das relações humanas uma microfísica do poder. Nos gestos, aparentemente inocentes, de condolência masculina ou de sujeição feminina está a base que fundamenta a sociedade de Gilead. Na aceitação dos preconceitos e estereótipos de uma sociedade cordialmente machista está a permissão das figuras públicas.

No entanto, o silêncio implica no consentimento. O Conto da Aia é um livro angustiante, pois ao demonstrar nas lembranças de Offred um simulacro pertinente a nossa realidade temos uma protagonista que remete as nossas fraquezas - independente de sexo ou gênero. Ao refletir sobre sua Mãe, sobre Moira, e todos os outros símbolos de resistência retomo uma sentença do doc. “She’s Beautiful When Shes Angry”:

“A lição amarga é que nenhuma vitória é permanente. Todos os nossos direitos são assim. Eles são tão bons quanto como os mantivermos.”

A influência que alguns políticos exercem no Brasileiro é temerosa. Devido a fatores como a aceitação dos discursos de intolerância se originou o Estado de Gilead. O livro ‘O Conto da Aia’ possui uma relevância por demonstrar a fragilidade dos direitos humanos. 



sábado, 17 de março de 2018

Crítica - 2046

2046 - Os Segredos do Amor
Ano: 2004
Diretor: Wong Kar Wai
Roteiro: Wong Kar Wai
Sinopse: Hospedado em um hotel em Hong Kong, o jornalista Mo Wan Chow escreve um livro de ficção científica sobre o futuro enquanto recorda seus relacionamentos do passado e se envolve com suas vizinhas de quarto.
Logo no início do filme Kar-Wai Wong sugere uma sintonia entre som e imagem. Os créditos iniciais surgem com a música lentamente, e ao saltarem de um nome para outro a música também acompanha em intensidade. 2046 é um quebra-cabeça narrativo, pois no relato do jornalista Chow Mo-wan há um entrelaçar entre passado, presente e futuro.
Uma confusão temporal proposital que se expressa no tom da imagem - o verde. Um brilho esmaecido que insinua lembranças - como fotografias desbotadas. E, no relato do Jornalista que escreve uma ficção no tempo futuro sobre um trem que leva pessoas para 2046, um lugar onde todos vão para reviver o passado. Reflexões se sobrepõem aos segredos do tempo e do amor, na atemporalidade dos sentidos está o fio de Ariadne.
No entanto, na razão do tempo o presente é um segredo a ser desvelado quando este vier a ser passado. Nas suas relações com suas amantes ele incorpora suas experiências a ficção e denota seu amadurecimento. Nesse ponto, há uma cor que se sobressai - o vermelho. Esse tom é violento para os olhos, a cor por si denuncia as sensações dos personagens. O que antes o verde significava, o vermelho denota vida. Viver é sentir.
“Quando a Peônia floresce, ela se ergue e morre sem dar uma resposta”

No silêncio da Peônia está o sentido do filme. Apesar do amor que uma vez vivenciou ele declara sua solidão No trem que vai para 2046, amor que muitas vezes vivenciou, ele reconhece sua condição - não há como abdicar de si. A montagem do filme se justifica, o amor é confuso. Wong Kar-wai faz da película sua obra mais madura. Seja na ficção 2046, seja no quarto nº 2046, Chow Mo-wan é o diretor. E, ao personagem expressar-se em primeira pessoa, ele coloca o espectador em seu lugar. Logo, em seus devaneios refletimos e nos sentimentos que nós evocamos é sabido que também faz parte dele.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Crítica - The Florida Project



The Florida Project

Ano: 2017

Diretor: Sean Baker

Roteiro: Sean Baker, Chris Bergoch
Sinopse: Moonee, uma agitada garotinha, faz novas amizades nas redondezas dos parques Disney. Ela vive com a mãe em uma hospedagem de beira de estrada e as duas contam com a proteção do gerente Bobby na batalha diária pela sobrevivência.
Futureland é a primeira referência geográfica que temos do filme. Futureland não é apenas um Hotel a beira de estrada, seu nome é um símbolo, assim como Magic Castle, o hotel em que a protagonista Moonee vive, também é. A Flórida aqui destacada é oposta a opulência frequentemente divulgada na mídia. Sean Baker há de tratar da periferia - há de tratar duma sociedade marginalizada.
Utilizando-se de uma filmagem quase que documental, ele explora o filme como uma criança. Observando o mundo a partir dela - tanto na angulação, como na movimentação. Um Ozu hiperativo predomina, um sutil contra-plongée em perpétuo movimento. Nessa predominância seus planos ganham significado, pois, ao alternar para uma grande angular, ou para um plano fixo ela assume uma nova representação. E, ao ver o Magic Castle, ou a árvore despencada que continua a crescer, a realidade das imagens gritam ao espectador.
Nesta perspectiva infantilizada, vê-se o mundo de Moonee. Invadindo estes personagens marginalizados  - uma mãe imatura, um gerente preocupado, e crianças, cria-se um véu, que se não analisado ou questionado seria um filme inocente. Um destaque são as mães, que ao ser abandonadas com os filhos devem sobreviver, obrigando-se a uma jornada dupla - trabalho e casa, e sem tempo para dar a devida atenção às crianças. Os pequenos vagueiam denotando o abandono, os anseios e a preocupação delas.
No entanto, esta forma de representar o mundo, inicialmente, engana. Atos são banalizados por mais violentos ou irresponsáveis que sejam. Algumas cenas expressas são deslocadas e sem sentido. Mas, o diretor/editor Sean Baker faz propositalmente. Ele circunscreve significados. Utilizando sutilezas de montagem, detalhes nas cenas ou nos diálogos.
Como, por exemplo, ele demonstra: uma cena de uma criança tomando banho ao som de hip hop. A criança nos rouba atenção - crédito para Brooklynn Prince, colocando-nos em dúvida quanto a sua representação no momento. Usando este momento repetidas vezes, ele incuti dúvida. Ao chegar nesse ponto, há um plot e tudo se esclarece. Logo, ocorre uma virada emocional que surpreende o espectador.
Um filme carregado pelo protagonismo da Atriz mirim, pela montagem e direção de Sean Baker, e pelo contexto que os personagens estão submetidos.  Devido a atmosfera precoce dessa menina a comédia com seus palavrões ou gestos obscenos é de uma comicidade enganosa. Edificando a trama nesses fatores ele cria sutilezas cruéis, dramáticas. Moonee emociona em todos os níveis - do riso às lágrimas. E, toda a irresponsabilidade da mãe é compreendida, perdoável até, tudo por causa do amor que ela demonstra pela filha.