domingo, 20 de maio de 2018

Soundtrack (parte 2)

Título: Sob o julgo do Rap, entre Don L e Makalister, ainda assim não esqueço A Lista.

Além dos passos sonolentos, na falta de apetite, vivo rápido para morrer bem. Pulando faixas, definindo traços no minimalismo, aprofundando relacionamentos, se desfazendo de outros. Hoje sinto na música mais empatia que nas outras Artes.
II
Ontem
[03:22, 19/5/2018] Testando 1 2 3
[03:58, 19/5/2018] Testado 321
[05:00 hr] Levanto e vou trabalhar. Bêbado de sono, um dia de eterno conflito contra ele. Torno a me comprometer para assim esquecê-lo, sigo essas horas sob uma Track - “Gasolina e Fósforo”. “Cumprindo horário / Felizes, prósperos, sorrisos de plástico / Bandeiras de selo pro desejo / Cardápio”. Voluntário do meio, submeto-me como servo. Grana no meu bolso, foco nos negócios / Gelo pra desinflamar a dor no meu copo / Muda minha vida que eu mudo meus modos / Mas enquanto eu não posso / Gasolina e fósforo”. Necessidade.
[10:30 hr] Já havia uma ideia a ser maturada na cabeça - Frenesi. O Minimalismo tem me possuído. Princípios singelos de tamanha profundidade - quase como tirar leite de pedra. E cada traço sussurra para mim um significado. Ao sair do trabalho, vou na livraria arranjo uma mesa e tento invocar aos traços, às palavras a ideia - não consigo dissociar do álbum Roteiro para Aïnouz de Don L.
[13:00 hr] Entre conversas, meu irmão decidiu me acompanhar no meu roteiro cultural de baixo custo. Exposição de Frida e Diego, e a peça Um Vânia (uma adaptação de Tchekhov). Marcamos um encontro na Estação de Metrô, opto por ir mais cedo. Enquanto o espero no banco indo pra Lapa ouço um novo álbum “A Terça Parte da Noite” de Makalister. Meu celular vibra - uma mensagem do Whatsapp:
[14:11, 19/05/18] Acorda
Track 02 - “A terça parte da noite não dormi”. O título já defini.
Novamente acompanhado, quando havia denominado esse final de semana como Roteiro do Peregrino, era antes do Eremita do que uma Romaria. Na exposição fotográfica há algo nos olhares de Frida Kahlo que me acometem dúvida, a petrificação. Não posso ir além, estou cheio de dúvidas sobre o relacionamento deles e por isso duvido das afirmações de amor relacionadas ao casal. Saio com meu irmão de lá com um objetivo. Track - “Ferramentas”. “Da hora, nego / As ideia é, cê tá ligado / É pra gente ir trocando umas ideia / E vamo, né, aprendendo um com o outro”. Na sua história sinto no tom de suas palavras as emoções, dos encontros, dos amores, de sua vida. Das alegrias, da nostalgia, e a infelicidade. Vejo nas fotos da exposição, nele e em mim semelhanças - relacionamentos.
Um Vânia. Tchekhov me surpreende por sua temática, para mim, universal. O estado de sonolência serve como um medidor, a medida do sono está diretamente relacionado com meu interesse. E a peça parecia droga, nele a vida parecia imitar a arte. Vejo isso em meu irmão, primeira peça em que assiste, logo se identifica com um dos personagens. A partir daí sua atenção lhe é roubada. Ele sorri. Por uma hora nem parecia preocupado com o celular e isso é o que importa.
Corremos de lá para o ponto, do ponto ao metrô, do metrô ao shopping e do shopping a casa de meu amigo. Todo o trajeto repito com frequência os mesmo versos de Makalister, track - ”Exercício de Elogio às Mulheres que Amei”. “Tennessee Whiskey, não ponha Gelo”. Exercício de trava língua.
22:19 hr Chego na casa do meu amigo. Durmo lá. Iremos à praia amanhã.
[17:48, 19/5/2018] Tenho andado castigando meu sonhos e dormido pouco
[17:49, 19/5/2018] Mas tento usar esse tempo para retomar coisas que abandonei anos atrás
[17:49, 19/5/2018] 23
[17:49, 19/5/2018] Cedo
[17:50, 19/5/2018] Abandonará outras tantas
Na conversa com aquela mina que conheci na casa noturna no dia anterior lembro, agora, de uma única música. Mesmo ouvindo Don L e vivendo rápido não reconheço outra música que não seja esta: “A lista” de Oswaldo Montenegro.

“Faça uma lista dos sonhos que tinha / Quantos você desistiu de sonhar! / Quantos amores jurados pra sempre / Quantos você conseguiu preservar…”

Soundtrack (parte 1)

Título: O que Don L tem feito por mim.

Um breve relato do meu final de semana e de como o álbum Roteiro para Aïnouz e algumas músicas de Don L tem influenciado nas minhas decisões.
I
Logo que a vi na fila tremi. Porque guardei os fones? Don L me acalma. Solto a bolsa de mão no chão, abro a mochila, puxo o fone, ele está todo enrolado. Me atrapalho, não quero vê-la antes da música tocar - nos olhamos por um momento. Um leve ‘olá’ com as mãos. Nesta colisão, tento manter a postura e ponho os fones e solto a primeira música da track, “Eu não te amo” - irônico não? A batida vibra nos meus ouvidos, meus pensamento se desmancham e reproduzo as letras. Porque eu andei por aí / Colecionando cicatriz / Transformando em pedras / Que ergui numa muralha / Entre o meu coração”.  No entanto, não consigo agir naturalmente, meu corpo está abalado, todo o cansaço da semana se soma ao tremor, incontrolável, logo pego a comida, logo como, logo queimo minha boca. Bebo com todo ardor. Meu corpo me violenta, track 03 - “Aquela Fé”. Ei, eu / Dez anos atrás / Eu tenho saudade / Será que eu consigo lembrar? / Daquela fé / No fundo dos olhos de um velho eu / Um jovem sonhador.” Um passado ingênuo, uma lágrima, outra... Termino a bebida. Se contenham! É o meu desejo, mas não minha vontade. Não é temor, raiva ou algo vingativo é um vazio. Um espaço nenhum de uma vida passada. Levanto, saio, enquanto Don L toca minhas memórias. Sensibilidade ou memória são um cu.
Quando ela quis desistir do curso? Quando havia o princípio de Síndrome do Pânico? E, as noites de atenção poucas horas antes de ir para o trabalho? Lembranças, agradáveis, mas dolorosas quando visto o motivo do término. Sinto-me em frenesi, track 08 - “Se num for demais”. Ok, aqui estou de novo / Comprei uma dose de gin / Deixei meu amor e o troco / Faz favor / Conta as moeda sozin' / Se não for demais é pouco / Num sei se a morte é o fim / Mas sei que a noite é dos loko / Tá bom pra você assim? / Eu quero viver.” Retorno aos meus planos e recordo que hoje é o aniversário da minha irmã, o compromisso que havia furou com ela então a chamo para um “Slow Jam”. “Gata vem comigo chapar / Mas só a conta / Vem tomar um drink no bar / Por minha conta / Vem dançar uma slow jam / … / Num vai dizer que não vem.” Vejo um sorriso e, apesar do abismo, vamos curtir aquela noite. Entre risos, conversas, desabafos, álcool, música e dança. Então, Ela surge, súbito, e num comentário que ouvimos rimos, num movimento plástico ela me seduz. Pronto, “Chapei” naquela mina. “Baby girl, eu chapo em você / Baby girl, eu chapo em você / Baby girl, eu chapo ein! eu chapei! / Eu chapo, ein! Eu chapei! / Eu chapo, ein! Eu chapei!”. Decidido em dar um reset em minha vida, tenho a convicção de não deixar mais meus desejos reprimidos. Decido então tentar, pelo menos levar comigo seu número e independente do resultado ter comigo essa lembrança.