As três irmãs
Autor: Anton Tchekhov
Sinopse:
"As três irmãs" é uma peça do dramaturgo russo Anton Pavlovitch Tchékhov, em quatro atos, um drama escrito em 1900 e encenado pela primeira vez em 1901, em Moscou. Três irmãs, Olga, Irina e Macha, vivem durante muitos anos na província, em companhia de seu irmão Andrei. Olga, solteira que vê os anos passarem e a oportunidade de casar; Macha, esposa de um ex-professor, aos poucos percebe a mediocridade do marido; e Irina, mais nova, que é a única que ainda acredita no futuro. Um drama sobre pessoas comuns e seus problemas aparentemente banais, mas que transformam a vida em um fardo difícil de suportar.
Resenha:
O autor trata de personagens, seus estados mentais determinam a ambiência da peça. Suas vidas privilegiadas são usurpadas por suas crises existenciais. A questão aqui não é a matéria, eles têm tudo de que precisam. A questão é psicológica, apesar do que possuem sofrem. Na inércia provinciana que vivem, acomodam-se em seus sonhos e não medem esforços, sempre a espera de uma realização miraculosa.
Nos quatros atos este tempo delineia não horas ou dias, e sim meses e anos. Um tempo despercebido, só exposto nos detalhes dos diálogos, das estações, dos eventos. A vida das personagens são aparentemente imutáveis, pouco se transforma. Há, apenas, súbitos estímulos - como a visita do coronel Verchini vindo de Moscou. Tempos que retratam a nostalgia alegre do passado, que motivam o desejo de reencontrá-la em Moscou - o futuro. E, o presente, demarca a angústia e a insatisfação da realidade.
Os Discursos filosóficos são representados pelos Homens. Tratam sobre a vida, o trabalho, o niilismo, o amor. Prosaicos nas conversações, suas palavras soam irônicas. Ao lidar com suas questões prestando grandezas às futuras gerações, e, ato contínuo, definem a vida à maneira fatalista, esvaziando-a de sentido e escravizando-a ao estoicismo. Palavras que soariam pérfidas se não houvesse o amor. Declarações fugazes de Verchini para Macha, do Dr. Tchebutykin para com as irmãs, de Tusenbach e Solioni a Irina.
Logo, no começo da peça Solioni sentencia:
“Quando um homem se mete a filosofar, o resultado é a filosofística, ou melhor: a sofística. Mas, se é mulher ou se são duas mulheres, então tudo se reduz a…”
No entanto, é nas ‘fofocas’, que as personagens se revelam mais interessantes. O subtexto se revela mais importante que as divagações dos personagens anteriores. Olga, Macha e Irina são um contraponto. Desvelam as banalidades e se apoiam no trabalho, infelizmente, vítimas das convenções sociais Olga e Macha se deixam abater e se conformam com sua situação. Entretanto, Irina, persiste no sonho de viver em Moscou, independente do irmão Andrei e de qualquer marido.
Como um fluxo de vida cotidiana, Tchekhov delineia o drama desses seres. Ele não relata apenas aspectos típicos de uma cidade provinciana, mas as universaliza na natureza social pelos sentimentos vividos pelos personagens. O trabalho é o que justifica a existência, o que se faz presente é o que importa. A alegria uma vez vivida por elas está nas lembranças da infância em Moscou, e como o relato de Verchini sobre um Ministro Francês ele conclui:
“Vocês não repararão em Moscou quando forem morar lá.”
Tudo o que há são desejos. É inevitável. Uma tragédia das trivialidades, percebido por Stanislavski na primeira leitura no Teatro Artístico de Moscou. Tchekhov representa em “As Três Irmãs” uma sociedade exausta, um breve reflexo contemporâneo. Uma obra dramática difícil de ser digerida por ter esse caráter tão comum ao ser humano. E, por essa razão, é que ela vale a pena ser lida.